A sede de dominar, mata
Refleti muito e nem sei como começar a colocar em palavras a vitamina de indignação, revolta, horror, assombração etc. É amigos, estou assombrada. Nosso país ao retornar às mãos dos que acreditam o mundo como espaço dividido entre dominadores e dominados, descortinou uma horda de milhares de assombrações. Afinal as assombrações são envoltórios de pseudo- humanos, que já não habitam este mundo de meu Deus.
Não é possível acreditarmos que são “humanos” os seres que criminalizam uma criança abusada e engravidada por um monstro-tio, a ponto de divulgarem o seu nome e a sua localização, enquanto insuflam uma congregação de assombrações ditas cristãs. E o que é pior, a tal congregação de assombrações vampirescas nem se preocupa em se expor ao crime de escangalhar mais ainda, com a vida da tal criança.
Fico a me perguntar se fosse filha dessas assombrações, o que elas fariam. Penso que, por se sentirem dominadores, essas assombrações, sob seus pontos de vista detentores DA verdade, fariam tudo o que pudessem para salvaguardar a imagem da criança nobre abusada.
São tempos de horrores chamados novos normais, por conta de uma pinaúna viral (aqui pedindo licença ao professor e Babá Ruy Póvoas, que assim se refere ao COVID-19) que resolveu sacudir o mundo inteiro, mas que dá a impressão que a sacudida está fazendo efeito completamente contrário.
Enquanto milhares se juntam em solidariedade para minimizarem as consequências em irmãos vulneráveis, outros milhares cometem atrocidades, incluindo uma bruxa má, loura, rica e corrupta, além de desalmada, que livra-se de criança de cinco anos sozinha em elevador, numa subida vertiginosa para a morte, enquanto sua mãe passeia com o cachorrinho da bruxa e esta última volta a dedicar-se a afiar suas garras assassinas. E o anjo Miguel se foi em voo macabro.
Em outro espaço, um filho que vai trocar o presente do pai é espancado em loja de departamentos, mesmo com comprovação de que não havia furtado o tal presente. E em outro, um menino é metralhado, com mais de 70 tiros de fuzil, enquanto brincava dentro de casa com os primos, também crianças e por aí vai...
Será que as assombrações dominadoras ou as defensoras delas não conseguem entender que os outrora dominados já se libertaram? Que uma criança abusada tem o direito ao anonimato e à escolha se quer ou não seguir com uma gestação que, além de colocar sua vida literalmente em perigo, vai fazê-la revisitar os quatro anos de abusos a cada vez que se olhar no espelho, com a barriga crescendo e com o fruto da monstruosidade crescendo dentro de si?
Será que essa horda de assombrações continua acreditando que pode lançar o anjo Miguel para um voo mortal, sem que nada seja feito ou tenha que pagar por isso?
Será que elas, as assombrações, não conseguem engolir um preto trabalhador comprando num shopping? Será que não conseguem ver um menino preto brincando numa casa com piscina sem pensar que ele é invasor ou bandido?
Não há problema algum em pessoas acreditarem que o mundo será melhor se estiver dividido em dominadores e dominados, mas hão crimes sendo cometidos em nome disso, mesmo num país “democrático”, que governado pela direita, não suporta a ideia de que os que eles creem “dominados” já não o são mais; que temos leis que nos amparam e que já aprendemos a filmar, divulgar, botar a boca no trombone e que jamais nos renderemos às vampirescas assombrações que, como último recurso para perpetrar a exclusão, mais que nunca cometem crimes em nome do Pai.
Só a equidade, a inclusão, a educação e o respeito aos variados pensares políticos, religiosos, étnicos, sociais e econômicos nos salvará desta barbárie que temos vivido em nosso Brasil. E que os Orixás nos protejam e nos permitam não entrarmos nesse diapasão de assombrações desalmadas. Axé.
A autora Elza Ramos é publicitária, pedagoga e iyalorixá